sábado, 21 de julho de 2007

Delirius tremens a quatro mãos (excertos-1ªparte/ a ser escrito actualmente...)

Estrugido de sempre

1

Não é de hoje que as pálpebras seladas soam a mundo,
nem de hoje que vos procuro
De sempre vos amo e escuto
E é de sempre que nos sou

Escuto por que onde acorrem esses membros,
que te abraçam como ao último
Por que “quê” desejaste vê-lo morto?
Confesso qual das armas a mais letal;
amor ou fome?
Escuto o que carrega o lirismo aos ombros, a vítima degolada,
um punhal quente e prazenteiro à ilharga
Ao longe, escuto gemidos que se detêm no prazer, e o crepitar dos
dentes...reconheço ambos
De há muito que o comedor de areia retine um jardim de bronze com raízes
vitéreas,
Escuto-lhe um último suspiro que me soa a redenção
Faço tão só por escutar o vento, coleccionando as folhas que traz
Por completar, um puzzle entregue ao nascer
O range range da claridade na sua eterna emissão, os cabos de alta
tensão,
Esta fatia de realidade, a paisagem,
a minha triste e sentida passagem,
O acotovelamento para passar, as portas automáticas, as buzinas
poliofónicas e os centros fabris, as formas de ver a terra da lua
A teoria do principio, o espaço e a expansão infinita,
Os debates e as terraplanagens, o estilete do futuro, o delírio de uma cura
A tempo
Escuto tudo numa confissão – alguém nasceu cedo de mais.

2

Acordei sem sobressalto num acorde amarelo de amola tesouras
Com fome de aurora,
Beijo agora as flores, disseminando discórdia pelas margens de um poema em
branco
Com os meus próprios gestos faço como me ensinaste, naquele tempo
Da infância
Olho para cada um dos lados e só então atravesso, de olhos fechados,
chapinho nas figuras, pelos campos
Confio nas amoras
Como quem conta uma história,
Sou o apóstolo de mim e demando a mestria de me bastar
Acto duma voz de sempre inventora, o final feliz
Limio a escuta na margem escusa do rio, num triângulo rectângulo e oblongo
Firmado sobre a corrente,
Sou a ponte-sílaba de nós,
A censura das palavras em borbotões de silêncio.

Do meu derrame conta-se uma fábula arenosa, um desabrochar doloroso e,
mais tripas de fora.
Serei um dia como tu, que soas a canto fúnebre arrependido de tudo,
que sabes ensandecer devagar
Serei a nossa janela e única saída deste paraíso em chamas, tão aqui
É-me dado escutar o crepitar neónico desse reclamo moderno:
Eis o primeiro moderno, o sol pálido, a pele branca e uma água tónica;
Aqui o que não se escreve, o que se deve sufocar, as últimas palavras,
A voltagem máxima que move a engrenagem, a dinâmica total tendida para zero,
Ah, se isto tudo funcionasse bem, como nos livros...

3

Lê o amor, a página branca que mancho
Escuta a água sobre a cabeça, bebe mais uma trago do rio Jordão,
Lembra-te de mim,
Com sede,com muita sede
Escuta os que morreram sedentos nos jardins da babilónia, os que mais
próximos estiveram,
O lamento dos que tudo perderam, o júbilo uterino
Escuta o motor pleno de ciência, o conhecimento combustivo,
Encima a torre com os teus pés de barro e cabeça alada, cobre-te com a prata
dos astros
Ouve-me a beber sofregamente, escuta a banda sonora que te pariu,
a dor próxima e o prazer doentio,
o princípio da sofrologia,
Escuta o livro do mundo, quando se fecha, a capa dura que o faz durar
Chega no lombo de um burro, ou de um Titã mal entendido
Escuta os dedos do balconista sobre o tampo, a vaga ansiedade e a beleza do
seu gesto,
Atenta o assobio do marceneiro e a telefonia imunda,
Delega-te a interpretação principal, uma voz de tenor e os sentidos aplausos.

4

De mim não se ouvirá um só aí contra a vida, mesmo que chore, mesmo que o
meu canto soe funesto,
Sou a alegria que nos sepulta, as lágrimas de falsete que a trovejam
o que há-de ser;
O brasido que queima aquém, um coador de palavras soando ilegível,
uma alma entrelinhas

Não há por cá terra livre de armas, nem homens livres sem virtude.
No seu lugar vai-se urdindo uma trama até ao regresso do Senhor
Sobre as águas, escuto, entretanto, a labuta dos pescadores no seu tear tosco,
as mãos sobre as redes,
Eu, o que com pressa as lanço ao mar, a ver o que brinca,
à sombra própria dos ramos altos
O inimigo mortal das musas, cansado polidor de palavras,
Não importa o que sou, mas que apenas consinto cair por mim, por ti e por
todos os que se deitam sobre granadas
Sem ninguém por perto, passeio-me instintivamente ao fim da tarde pela
cidade ou pelos campos distantes
Sou o bouquet que escondes atrás das costas suadas, a circunvolução dos
girassóis,
A melopeia sustenida, o amarelo torrado das beatas, a extrema esbaforida das
tuas asas, no seu toque de Sol
Adestro-me nesta ciência ultra planetária, e a planície roxa diz-me respeito.
Não, não desmaio nos campos,
Sou sobre tudo um labirinto de papoilas,
Às vezes um cedro gaiola duma espécie de ave extinta
Amo o verão das vindimas e trago cestos de vime cheios até cima, com as mãos
pegajosas,
Guardo uma alma setembrina, e um vício oceânico
Vorei os ilhéus por fora e eviscerei o mar,
Constrange-me hoje a nota melancólica que sopras debutante, e invejo como nunca
as artimanhas suicidas de que forras o teu sepulcro, o risco com que mudas de
estação,
Mas o meu egotismo é vaidoso e impede que avance inconspícuo
Nós dois não temos segredos – lembras-te?, oferecemo-los todos sem reservas.
O que quer que me escondas, só guardas de ti próprio. Não me privas de muito se me
tiras o sol,
O meu caminho é nocturno, dormido entre morcegos e penumbra.
Tu nada podes contra a noite, mesmo que a leves,
é minha e, o coração de chumbo é o seu brilho
nesta parcela da terra, a beleza da colheita
Canta, canta o silêncio ébrio, arrasta a madrugada, ergue o triunfo das manhãs em
louvada e nova alvorada
Que eu escuto-te prenhe de queda e só sou livre quando a cantas.


A-caminho

1

Para trás os lençóis de linho, o sonho pervigil, o vociferar exangue da tua voz
Para trás a distância, os passos escutados e os arredores que não percorri
Para trás os que se preparam para partir como tudo o que não regressa,
a ombreira da porta que faz toda a diferença,
Para trás a eternidade dos poetas, o amarelo das azedas, os dentes que as
Rasgam, a mastigação voraz e, eu todo,
Para trás a verdade que quase fui, a derradeira miragem de um deus do
deserto, uma nova forma de te tanger, meu deus,
a única e nenhuma
Para trás o caminho que fui, o decalque árido dos teus passos, a veludo,
Para trás, o que sou, apesar dos frutos roubados, os mandamentos e novos
pecados, o ser vibrante de azul e lamento
Para trás o olhar flácido da rua, uma ideia de tempo, o espaço que pariu a
verdade e a possibilidade do ser
Para trás a matriz ontológica da matéria, e o que vem a ser isto Tudo,
Para trás o futuro, uma cidade submersa, o progresso e a evolução,
Os romances que li, o castelo de metal cegante e uma promessa de regresso;
Para trás a questão, a existência de Deus e a fé dos apóstolos.

É tempo para haver quem olhe por mim, de me confiar
Tempo de encantar refúgio na colina entre as cidades, e crescer o próprio
mundo até lá, içar aí um abrigo e viver do que me dás,
É tempo de decifrar nas fímbrias cinzentas a razão do azul, na extrema alva
da tua clavícula
É tempo de ser a cavalo e aprestar o salto, viajar nas aljavas do vento repleto
de cupidez sedutora,
Tempo de prescrever-me nuvens pelas tardes magoadas, como a ti receitaram
recortar folhas verdes em escrupulosa simetria,
É tempo de olhar o espelho espiral a baixo, reminiscendo o travo do
abatimento
Comer uma maçã vermelha e reassumir a guarda, armar-me até aos dentes
contra uma extremidade qualquer,
Correr sem olhar para as margens, perfurar a montanha e desaguar vazio
Tempo para haver um amigo, observá-lo com redobrado cuidado e despedir as acácias
aspergidas pela hera
É tempo de beijar o chão, agarrar os cabelos junto à nuca, estilar uma cora de
espinhos, sobre tudo
É tempo reler o poema e arar o campo à força das mãos, apurar o raça do
refogado
É tempo de entre nós e a tumba distar um sorriso, de sacudir o tapete e rogar
pragas ao juízo,
De argumentar contra a guerra e de temer a invasão dos astros
Tempo de retroceder duas casas ao lugar cândido da infância,
e de só te obedecer aparentemente
É tempo de me misturar com eles e fingir melhor, de revisitar o quarto
arrombado pelo sol
Passar as mãos pelo rosto e aguardar as palavras
Tempo de tomar de enxurrada a manhã, descomprimindo-a na planura das
tardes
É tempo de cantar o mundo, desassossegar imagens, de arrastar as asas e o
delírio
É tempo de ser outra vez, para trás.

2
Desço a rua num socorro silencioso, espezinho as pedras mais pequenas
Desvio-me dos penedos de betão
Não conheço rumo, jangada ou plano, dou-me pela foz e no cume das serras
Não sou dono do ar, nem das águas, nem do sol, ou do tempo, mas o
coleccionador das tuas palavras, perito em porquês,
possível compulsivo
Sou tudo coisas estranhas e inoxidáveis, de volta ao capricho da Primavera e ao
desperdício das cores
A garganta ciciante do rouxinol barroco, esbaforido de placidez
violeta,
O cunhado dum fim de tarde na melancolia dos que admiram o céu

Ensinas-me, meu amor, a escrever-te sem dor?
A história é simples, e ainda assim guarda todas as histórias do mundo,
contadas e por contar
Vai directamente ao assunto sem esperar, repleta de curvas e
contracurvas, sinápses e viadutos desafiadores
Entre Lisboa e lugar algum, empreende o caminho mais longo entre dois
pontos, desenhando de um jacto o projecto existencial da galáxia.

Tento não pensar nisso, desvio o olhar para o tabuleiro de damas
que adorna o jardim do costume,
Prefiro divagar sobre a vida dos reformados, forçando o paralelismo com a
existência urbana dos pombos
Adestrar-me neste ofício de tédio
Debater a situação num dialecto profeta, usar-me em retórica delirante.
Mas em breve não disporei de damas ou reformados, nem jardins,
os melhores têm hora marcada e um vigilante ansioso
Ele tem casa, família, e um ror de dívidas às costas, ama a vida,
e o trabalho nem sequer é duro
Acima de tudo, é um profissional da vigia, atento aos movimentos da barbárie.
Sempre é melhor que guardar a faixa de gaza, com um colete à prova de balas
e o coração nas mãos
De metralhadora em punho, brindar ao futuro de mãos vazias
E, para que não haja surpresas, começar a ronda pelas sítios mais solicitados
pelos bárbaros coloquiais.
Sei do que falo, estudei autisticamente os seus gestos, e não encontro
problema em dissipar vestígios da minha presença.


3

O gato entremeando as minhas pernas, mostra o caminho
Bem sabes que acorro a todos febrilmente, e que todos as estradas levam à
praça central, onde se bebe o melhor café e a vida desvaria nas silhuetas
taciturnas de néctares profanos
A promessa é de amores levianos
“Ó sulco no meu coração”
Sirvo-nos uma bebida social diuturna, seguindo os
passos incertos numa certeza demente
Semeio os bêbados pelas valetas, e só por acaso desabrocham da minha
solidão, fendidos de prazer bravio
Amanho a terra da loucura e colho os dias estranhos, atrás dos escombros
de um olhar de louça
Sou espião de um amor inexpiável, escadas a baixo
O abismo infundado, onde uma só estrela canta o mistério azul-veludo.

Abocanho tudo com felinia e agito freneticamente os dedos,
retesando as unhas, mato agora de prazer, uma a uma, das coisas de
Deus
E desfaleço a seus pés, expiando o este outro pecado.

Mas és tu, que me vales, mais uma vez no caminho, como pela tarde a sombra,
arduamente
Que apressas o tempo para que torne à nascente, delírio verbal
Que apagas de novo a luz, de regresso às trevas celestes
E provéns o luar em breves termos
Que aguças a vaga furiosa, ornando-me dessa bijuteria dos cumes
por onde te demoras toda a noite a embalar o branco
És o que reflui metamorficamente o caminho e a perdição escarlate
Que nos admiras ao espelho quando o sol encandeia,
e que o fitas de raspão
Que me mostras escasso para tamanha dúvida, por aqui
És a mãe que esbofeteia os filhos, a carpideira que canto
através deles
O olhar baço que os aprisiona, a frustração e a vida...
O meu legado, a tua loucura.

4

Por aqui, canto ainda o caminho e as pedras, as golfadas de verde revessadas
os que a tempo atravessam
O baldio silvestre, o caniçal, todas as caras e passos, atrás de mim e adiante,
as vinhas e os olivais, o traçado geométrico dos campos, as lezírias, os pomares
em flor, e as colheitas
Canto a plantação e a ceifa, o asfalto e a velha ponte romana, o alto dos ais, o
vento irremissível que o habita
Canto os plátanos e os animais vivos, as aldeias, as vilas e as cidades, os jugos
mecânicos e os vagões urbanos, sarapintados
Canto o ruído sobre carris, as remodelações civis, as golfadas de malmequeres,
os morangos, as dunas e o vagido tonto do mar,
Canto a desflorestação e a lua, o beco da infância, a contra mão e a rua,
o sentido único dos corações,
Canto os pinhais, o verão, o ribeiro, as azinheiras, as águias e o seu adejo
espiral
Canto as embarcações e os portos, o areal granate, e as amarras lassas,
as falésias, as gaivotas, o mar, a manhã, e as cinco da tarde,
Canto o fragor demolhado, o orvalho aos ombros, os meus pés em movimento
e as botas puídas, a procissão, as janelas incandescentes, os castelos e
os templos esquecidos
Canto as torres de iluminação eléctrica, as vitrines diáfanas, as promoções
e todo o progresso
Canto o vento nos meus cabelos, uma flor à lapela, a ceifeira, os fardos de
palha e a terra penteada
Canto o acotovelamento público, o ar impoluto e o resto, a chuva
e todos os abrigos peregrinos
Canto as paragens, as fontes, as margens, a beira mar, as nuvens soltas
os pastos e os charcos longínquos
Canto a meia noite, a lua nova, o néctar das manhãs,
o nevoeiro vespertino e as noites indomadas
Canto o grito das fragas à noite, o azul turquesa e as baias,
os que chegam e os que partem, os que fazem pela vida
Canto a estrada esmaecida na praia, a construção e as gruas na encosta, a
alegria dos que trabalham
Canto o roçagar da erva húmida, a alma das esferas e uma epopeia de betão, o
metal erguido ponte sobre a torrente
Canto os corredores verdes, as estações e o gorgolejo dos rios,
os sulcos compridos e as tempestades, o murmúrio promíscuo e as enxurradas
Canto a vilania e o perdão, o espaço profícuo e as estrelas, o cometa incansável
e o paralelo preto do chão
Canto a alvura e o seu mistério de sempre, os bosques brumosos,
as colinas profanadas, o voo alto e as emboscadas
Canto o coração e as entranhas, as vielas escuras, o corrupio dos fantasmas,
o caos e as cores
Canto-me a ti...

5

O meu ciclo dilui tudo num bocejo, onde a alma descansa em vapores e
morfina
Sou por onde a poesia se entrega em mãos,
os meus dedos equipam diligencias d’um génio prestidigitador
Avancei a fronteira, o último bastião, fui o traidor, de absolutamente ansioso,
por quem nunca chegaste a tempo
O que se arrependeu tarde demais e quase morreu sem nada.

Fui sempre uma questão de terraplanagem
A canção imprecisa e fora de tempo
que a todos chama para esfaquear fatalmente os tempos mortos.

...Preciso de ti para amar, preciso de ti para matar
Tenho-te em todas as ruas, por todos os caminhos de que és porta
Beijo a fenda escura, renasço e ajudo a nascer,
a realidade do prazer, a atracção total e o choque
inrazoável
A minha vida é o ponto exacto onde te dás poema
A expansão e a redução cósmica a um só tempo
Fui seduzido, ou deixei-me levar pelo fogo, assim que toquei a lua
Nesses lábios que queimam
Aprendi a admirar os que na espera pelo último império,
içam uma ponte móvel sobre o tédio.
Observo hoje a tua escrita em tempo circular,
Estudadas as novas cidades que sobre outras ergueste,
Sei as histórias de algumas nações que anexadas.
Disseste-me que entre nascer e morrer havia um único momento
Em que nascendo se morre, amando alguma coisa
E eu acreditei
Ser mais um a-caminho.

Nota: a presente aparição não cumpre em absoluto a formatação original dos textos.

domingo, 15 de julho de 2007

Execução

Desde a primeira palavra
Mato a sede a espinhos
De dias revistados, fundo só um amplexo
Basculante, gesto silabado
Desde a primeira palavra,
Vaso-me em placidez escumante
Reinvento a morte em massa
Num suicídio colectivo,
proponho-me um fim,
Desde a primeira palavra
quero por ti
Seduzir e matar
Desde a primeira palavra
Escolher a rua do resto do tempo
Embalar meninos no pranto das seis
Ao lanche inocular-me algum veneno
Desde a primeira palavra
Jogar-me numa personagem sem tacto

Desde a primeira rua
Ser o tempo
E viver do vento
Nas margens recém libertas
Bastar-me num alambique de sangue escuro ao dia
Desde a primeira palavra
Escamotear o modo de te aparecer
Todo por ser
Desde a primeira vez
Adivinhar-te o fausto gesto
Num Instante fotográfico
D’ execução do tempo
E de quantas atmosferas se inspira o espaço,
Enredar por atacado e, por toda a parte,
A cultura de castanhas à saída do metro

Desde a primeira palavra
Enlançar o perigo
Num jogo duplo evasivo,
De mãos às ilhargas
Enclausurar a besta a pulmões de alcatrão
Recobrir o empedrado doutra civilização
Por tanto tempo, demorar o sonho
Orvalhar a memória dardejante-
Pálido-tom-de-acabar
Desde a primeira palavra
Viver a última.

Autofágico, talvez

Os convidados chegam aos poucos de propósito
demasiado impares, talvez
a gula seja escassa para assaltar a Suíça
e os sonhos de neve-à-chama transpirem das coisas do mundo, talvez
a avó nos vá servindo animais torrados ao domingo
e roamos as unhas antes de devorarmos os dedos, talvez
um pôr-do-sol ao deitar e outro ao levantar
três vezes ao dia, talvez
uma caixa doutra coisa também faça bem
antes do pequeno almoço e em lugar do jantar, talvez
engolir o frasco depois de o destilar
num chá preto aos ratos, talvez
só custe a princípio enquanto não se habituam os olhos
no meio livre do pensamento, talvez
se possa abandonar este repasto de vez
e nem seja indispensável morrer à mesa
talvez,
seja já tarde para taisvezes

Lobo Antunes

A rua escorria num murmúrio aveludado. Ao longe, as máquinas obedeciam conformadas, revolvendo a planura. Era verão. Embora o outono berrasse do outro lado do mundo, não passava duma valsa anoitecida.
Domingo de manhã, na placidez da cidade encolinada, havia farelos para os pombos e mãos sujas para os pulverizar. No momento em que o tempo encravou a vida e cumpria glorificar o ócio, procurei um sítio para apreciar o caminho e fumar o último cigarro.
Acenei-lhe uma última vez, já dentro do automóvel.
Chegado da narrativa pretérita. Estou aqui e agora no varandim do precipício que sou. A criação em mim boceja e colapsa. Estou demasiado próximo para temer. Tão dentro para sair. Vejo as costuras infectas do mundo, por dentro. E digo-lhe:

«Tu não és só louco meu amigo, és mais um. Lá fora há um outro hospital. Também a mim internaram... Lembro-me de dizer isso mesmo à minha mãe – «Vejo-os a rasgar as paredes... Contam-me histórias de desconhecidos...» São essas histórias, meu amigo, que hoje tenho de criar.»

«Mas não foram elas que me prenderam aqui?!... Então escuta. É natural que não notes o início da história, pois essa começou antes de ti. É a história de quem se encontra emparedado entre si próprio e ela...»

«Conta-me tudo isso mais devagar.»

«O narrador cósmico do mundo, não tem idade. Tem resolvido desde sempre o enigma da criação. O seu irmão a quem prezo igualmente, tem a idade do espanto e é o construtor dos esfinges. Passam a lucidez à lareira e fumam desalmadamente. Acho que tabaco não os mata... Eu sou, segundo me disseram, a história do enigma da criação, e sempre que falo estou na posse do sentido profundo das coisas.»

«Devagar..., para que te escreva.»

«Estão todos mortos. As suas visitas ocorrem numa sala sem portas nem janelas. As paredes abrem-se-nos pois não passam de metáforas. Quando não me visitam e a sala fica vazia, e tudo pulsa nessa ausência. Nesses momentos não há história que me valha. Caio em mim e vejo-os pendurados junto das restantes máscaras, vazios e inexpressivos. Sinto qualquer coisa junto ao pescoço, uma espécie de aguilhão que também a mim dependura. O meu corpo parece então morto, donde o vejo, desinspirado entre cadáveres. Sou então uma máscara de mim – espécie de narrativa pousada numa alma poética.

«Então e se vestires uma outra máscara... Pode fazê-lo!?»

«Mas as máscaras não existem. São como as paredes da sala de visitas, como as visitas e as suas histórias. Por isso estou por aqui... Sabias que este jardim foi em tempos um lugar onde a loucura os colhia na flor da idade?»

«Percebo agora porque te prezo meu amigo. Não sei por que diabo me transformei em escritor. A folha branca não consente recuos definitivos mas desvios e um delírio reinante. Talvez me ajudes a semear um pouco de caos lá fora, onde obsessivamente são erguidos escolhos ao devaneio. No delírio dos meus irmãos aprendi a cultivar a meu.»


«Então escreve no teu relatório o que te vou ditar:
Hoje visitei um amigo na sua casa. Perpassei as paredes como um fantasma e sentei-me à lareira. Conversámos durante algum tempo. Fomo-nos relatando mutuante. Contou-me qual o meu papel na sala. Debruçamo-nos entusiasticamente sobre a loucura.
Sei agora quem faz o papel de louco.»

terça-feira, 10 de julho de 2007

Um do outro

Candente na noite, Aquela cujo destino se cumpre no roubar dos corações, avançava ao encontro da brisa marinha. O corpo sibilante espartilhado no sobretudo fechado, descaía como um véu sob a face espumada das águas, semeando-se descalço no difícil caminho.
De soslaio, serpenteando um ritmo, o penedo que norteia a falésia cobre-se também de prata, fazendo-se escutar esmagado nas vagas que nunca o cobrem totalmente. Mas Ela avança, insuspeita para Ele, que está longe demais. Corre mais depressa do que lhe permite a razão e, ainda em terra se afoga.
Fica um nome gravado na rocha, por longos anos, a dança moribunda inscrita na areia, o vestido branco flutuando na maré vazia. E Ela nua, fria, lembrada com um nó no estômago.


Aguardavam um pelo outro, fugindo cada qual de si próprio. Mal se conheciam, mas isso bastava.
No primeiro dia em que se descobriram não havia saudade. Era Ele dela e Ela dele; um, sem saber do outro, desde sempre, em correria um para o outro.
Ainda criança, descansava neles o amor; tinha o rosto da mãe, da irmã, do avô, mas não se esgotava aí - faltou sempre um outro que esgotasse o amor; um nada de parte a parte e um desejo sem fim.
Naquele dia chovia. E havia melancolia. A multidão tinha um olhar, cabelos longos, pele branca, muito branca, um vestido escuro, uma silhueta. Naquela noite adormeceu o sono.

«Posso apagar a luz?»
«Não, deixa-a mais um bocado...»

Estava diante dela, e Ela diante dele. O desejo entretecia suavemente o universo, atraindo-os para o seu centro. Apressou-se a beijá-la, porque ela queria ser beijada depressa. Os dentes batiam no dentes, a boca retraía-se ao choque, mas de novo corria procurando a outra, sem se descolarem os lábios, o mundo ruía no silêncio gritante da rua, o sol e a lua esbatiam o tempo, simultaneamente, noite e dia não eram nem uma coisa nem outra, mas a síntese transeunte do amor. Ninguém chamava. Ninguém os reconhecia, tão altos, encimando a torre dourada. O medo era pequeno, insignificante. Acima das cabeças o céu estirava uma fina película, trespassada mais adiante. Ao longe, chovia, abaixo das nuvens; todos se guardavam da chuva dentro das grotescas casas de xisto. E o vento uivava nas ruas, dobrava os ramos. Mas naquele egocentrismo dual, não havia para onde ir. Ele era dela e Ela era dele.

«Amo-te. Sempre te amarei. Sempre te amei, meu amor.»

As lágrimas corriam dentro do peito, florescendo num sorriso que tudo iludia. Mas eram felizes, tão felizes sem saber.
As noites longas eram escassas para suportar o desejo. Por isso escreviam-se cartas; palavras a mais para o vazio, vazias demais para o amor. Ao serem lidas parecia que Ela era mais importante que Ele, e Ele importava mais que Ela, parecia que Deus os havia abençoado, deixando a vida de um ao cuidado do outro. E Ela já era quase tudo. Ele não podia viver longe dela. Queriam morrer nos braços um do outro, mas nenhum deles tinha braços; no seu lugar expandiam-se dois céus, dois sóis, duas luas, dois abismos suspirantes. E dois mundos gravitavam dentro do amor, em torno dele. Nada disto se via, nem se podia auscultar, mas sucedia a par da timidez de ambos, à medida em que crescia a saudade.

Naquele dia, começou Ele a morrer, e era Ela quem o matava, devagar.
Naquele dia, a sombra dele corria, mais depressa que o corpo -;

aluía o preto e branco nas flores, pelas cores, adiantando-se a descompasso nas reentrâncias da parede, submersa no beco onde não alcançava a manhã.

Naquele dia, Ela saiu, levando-lhe o coração.
E desde aquele dia, Ela ficou assim, sem que Ele a conseguisse mover -;

uma nuvem de pedra. « Turner...», exclamou Ele. O temporal junto à costa, o céu feito de chuva, a penha mergulhada no inverno despedindo-se do Outono!... A minha vida é um vendaval que o mar tem de engolir, uma nau fundeada com a praia ao largo, apressou-se a escrever.

Abria então o reposteiro negro, e de púrpura se tingia a luz interior, guardada como um segredo. De dentro do clarão purpurado, entreabriam-se miríades de flores inclusas numa última que as segurava ao centro, transparecendo-o em espiral para o seu íntimo diáfano, surdo-mudo, paralisado, quase totalmente, gritando ainda no silêncio do pensamento – a beleza!
Norteando a insónia, que o pregava à falta dela como a uma cruz, alongava-se do seio da cor, transparecida de nevoeiro, a falésia sedenta de mar. E todas as vozes se misturavam perigosamente na sua, que chamava por Ela, tão próxima, pulsando ali, ao dobrar de cada instante, tramando o manto da noite.
Queria esquecê-la, só, mas também vê-la, uma última vez, morrer aí sem adeus ou saudade, com Ela nos braços e por dentro dela; ao longo dos cabelos, perfumando-a num fulgor ansioso, para que Ela se lembrasse do que ainda não via, e a eternidade selasse num derradeiro ribombo, a certeza de que Ele era dela e Ela era dele.
E às vezes parecia que tudo regressava com revigoradas forças, definitivamente. E era claro, tão claro, por que a vida era Ela ser dele e Ele dela -: tão longe, ninguém se arriscava e o amor tinha de ser verdade.
Mas a tempo Ela lhe doía. E de novo se enchia o quarto, a cidade, toda a vida com a sua ausência pregnante. De novo o medo ladeava de noite os passos em frente, e, para súplica dele, o abraço cingia-se em dois trémulos membros vorando o vazio -;

Ela à distância das mãos, por toda a cama, suspirante, perfurava a dor com nova dor, até não se sentir mais nada, semeava o futuro sem expectativa e crescia, dolorosamente, de encontro ao caos enclausurado no peito, rodopiando com uma segurança felina ao longo do parapeito que Ele queria saltar.

Contra os dias de futuro difícil, avançava Ele com chuva pela frente, aligeirando o andar, atravessava sem olhar, sem medo das ruelas estreitas onde se esconde o fedor da espécie, nem da voz demoníaca que o distraía do sentido.
E Ele morria se não a visse.
Mas Ela resistia e deixava-o cair.
Ele chorava. Chorava, porque era Dela.
Já perdido ainda temia a perdição. Tremia só de pensar que tudo podia levar o desespero, não poupando sequer o tempo para que das antigas frutificassem novas viagens.
Mas havia tempo, muito tempo para esquecer. Tempo para esperar – «A vida continua» – pois, como se vê, a vida vence sempre, e continua, brandindo o moribundo numa centelha de vontade. Como se percebe, é tudo uma questão de tempo.
O problema era o tempo, a espera, o alcance do sofrimento. O problema era o amor. Era Ele estar fora dele, por culpa dela -;

tudo uma mentira. Um ser à beira de cair noutro, limiando o fim. Foi tudo um nada presente, do tamanho do tempo. Um vislumbre do caos a perder o medo, a distender a vida para lá dela, para lá deles, numa esperança imortal e cega. Foi Ela longe, e o mundo a acabar aos poucos, desabando ferido de morte, persistente, nauseante e pesado. Apenas um pretexto para que a vida vencesse onde não se imaginava que houvesse vida. Foi só um instante.

Mas nos ouvidos dele uma língua se enrolava. O segredo escorria fluido, escumando no silêncio sem cor, a cor do silêncio, altissonante – é a voz dela lampejada de murmúrios, aspergida num só tom, num só sentido partilhado na frase -;

«Agora somos só nós, outra vez. No fundo nunca deixámos de ser nós... que valemos por tudo o que virá.»

As palavras dela, como faróis mediando dois abismos, traziam as margens para o rio, brotado da nascente morta, abaixo da última profundidade da terra -; um firmamento de sangue coado, atravessado no relâmpago que ilumina a sombra.
E de desejos estranhamente seus, agarra-se Ele ao vestido dela, como a uma bóia de salvação.
Esvoaçam de fulvas asas, as harpias envenenadas de futuro – numa esqualidez de marfim puído, quase metálica, esmaltada ao meio da noite -, e só quem sonha os vê trepar os cabelos que pendiam dos confins da vida, à margem do tempo –;

«A todo o vapor, dá-lhe esperança, uma dose excessiva.»
«Finalmente chegou a medicação. Terá conseguido passar na fronteira controlada pelas tropas de ocupação.
«Eu começava já a pensar no pior. Com este tempo, mesmo que estivessem perto, dificilmente conseguiriam viajar.» «Isto só funciona se tomares muito.»

Falavam todos ao mesmo tempo, como porteiras desamordaçadas após um mês de cativeiro. Mas todos queriam dizer o mesmo -: «Tudo recomeçou» -;

a Primavera florida numa janela para lá do inferno, entretecida nele, lânguida, devota ao ciclo em frágeis botões estacados na geada, confiante do seu tempo, que chegará.

Era como se o sol estivesse dentro dele, dentro dela, dentro de tudo o que se despedia na subida. Ele só tinha de ser o que havia para ser; tinha de adormecer para acordar junto a Ela; tinha de morrer para ter vivido por Ela.
Era preciso tê-la para sempre, sem pensar muito nisso. Queria que Ela fosse o que só Ele podia ver, e lhe oferecesse apenas o que implorava o desejo Dele -: o rosto dela do outro lado da nuvem espessa, a sua voz no extremo distante da linha, falando-lhe da vida.

Mas os sussurros longos dilatavam-se, e só o silêncio soprava, transindo os espectros que, bordejando a torrente ardente, guardavam o bosque infernal num colete brumante.
No flanco aberto onde se estarrecia a noite, estiolada duma pouca luz, deixa Ele mais um suspiro por Ela, desalastrando o próprio corpo até Ela o tomar. Das lágrimas que mancharam de brilho a escuridão do vale, reflui enfim um precioso continente na profundidade do mar. E aí, só aí, onde ninguém os pode ver, podem ser escravos um do outro e morrer, naturalmente - Ele dela e Ela dele, sem que ninguém se atreva a dividi-los.

Sentido de estado

Expio um verme fascista fora do casulo
Uma saudade pidesca
De brilhantina e óculos de massa:

Renuncia à liberdade poética
Almeja uma política lilial, com dias contados
Dentro da massa de essência
Turvante etílico sem sentido
Boca fronteiriça e o fim dos lábios
Um desperdício de solidão.
Sorri quanto baste
Evacua silenciosamente
Com gravata distinta e luvas de pele
Aquando das visitas à Roménia
Visita-a assiduamente;

Mudou para lá o Tejo e algumas paisagens budistas
Fundou uma espécie de lusonacionalismo espiritual
Passa férias na Sibéria, como qualquer eremita moderno
Retracta-se com a alma e corre ao inimigo
Subservientemente, cria condições para a revolução de sentido
Dissemina a estranha nova
Pede, por favor, uma omelete com passas e puré de limão
E rapta a filha mais velha do vendedor de apólices
Junto ao parque de estacionamento
Declara-a guarda dos pessegueiros em flor
Confeccionista de recepções invulgares
E deposita-a no quiosque sujo da esquina
Demanda o pagamento em guardas-chuva ingleses
Tolerando apólices incontinentais
Previne a rua do seu outro nome
Do centro do árctico publicita uma bebida trasnsiberiana
Explodindo a atenção dos turistas bascos
Sublimina o hábito selvático
Autosegredando como poucos a moral
É o nosso homem!

Caso de amor, jazz e contrabando de dor

Eu, a pão e água no jardim moroso
Ela, a raiar o enfado satiricamente
Eu, preguiçoso, rosáceo
D‘elegias dementes
Ela, abundante transtorno
A fugir-me à visão
Eu, vislumbre insofismável...

Sob a secretária onde incha um processo a preto e branco
E se Respiram cigarros clássicos, o caso deles
Envolve uma loura sintomática
E vários chapéus de abas largas
É um caso de melancolia passional e enredo pétreo
Um caso de amor...

Saiu de casa cedo
Com um punhal arabesco,
Fumou o canavial com aquelas coisas e tudo.
Havia já cerca de três horas não caía em tentação
Mais ou menos como no filme
enforcou-se no vestido de noite
Segundo cálculos e jornais da especialidade.
Alguém a ameaçou a estrídulos de rua desesperada
A carótida fora cortada após a queda.
Mas ninguém se mata à toa
Foi ao que parece um caso de amor, jazz e contrabando de dor
Escreve-o depressa.

Vale de “Blues”

Vale de “Blues”

Vale-nos a bebedeira colorida
no concilio de escravos azuis
subterrados
os corações na forma de um grande toldo verde
recobrindo penas ardentes a esplendor ensebado
de azul-à-espera que o azul surta efeito.
Vale-nos o amor afogado de verdade
a segurança noctívaga das asas de cânfora
em livre trânsito pela Ásia
vozes dilatadas dentro da cabeça
segredos de algodão cuspido com a alma
e uma algibeira de talentos.
Vale-nos alcançar a repelões os lábios
a lengalenga interestícia
a febre feérica d’ acanto
os caixeiros viajantes de amor.
Vale-nos valer-lhes amar de mais géneros de dor
formas múltiplas de gizar
a boca lassa de bocejos
e o deleite morno do trocar de braços.
Vale-nos a valsa modorrenta
os reverberantes arranhas céus
ao fundo da escadaria uma morte assim pachorrenta.

DomingoD’Arrasto

Grav’Anelant’Suada

ÂnsiaD ‘AcordarPorQuaseNada

AlvorQuímic’Imaginação DeBerbequim

NãoSeiQuêD’Guia NãoSeiPorQueRaio

Quart’SanatórioD’ Sãos

SentidoCrochetBombástico

CapitalDaNáuse’ Europeia

CaniveteD’olharJugular

EstremunhoGeometricod’ pomar

VaporIntoxicanteMaterno

Bossa-Nova-Doce- Panaceia -De -Melancolia

Imelodios’ TomD’Infinito

MesmoDiaExpandidoVáriasTardes

MonçõesObtusasD’CaboLaranja

Escal’EmMercúrio

DeRegressósol

FuracãoMaduroPraCompota

LinguajarBoçalDumaBocaD’ Espera

EntreNoite’SemRemédio

SudárioDeplanici’Estreita

NovaManeiraD’EmaranharCabelos

LetrasLinhas’E PalavrasCansadas

Por Aí

Nesse outro estilhaço malabarista, vertido a silêncios roxos
o tacto é d´inebriar, por acaso
a brisa uma valsa etérea, revestida a campânulas d’aço
as mãos são de cânfora, implorando mais um whisky puro
de brindar às putas.
Do amor sabe-se uma história que acabou mal
e que nada domina a perícia de te ter fechada em casulos de barro.
Quero aí muito mais de ti sobre os plátanos
mais de dentro, espiar o que daqui parece um sopé clandestino,
queria que não fosse só quarto vazio de versos brancos
a intervalos impotentes
mas a invocação despudorada de um Deus perdido d’ amor.
Sacrifico aí todo o vício por um cigarro
ou um pouco que seja do frio na cara.
Escuso a metafísica como doença de que padeço nas férias
e essa silhueta com que saldas exalações de mar.

Adumbração d’embalar

Vivia duma neblina
Mascava o lábio inferior
Escrevia-se de modo pouco musical

Quando a manhã o agarrava pelo pescoço
Sonhava com colarinhos brancos
Era uma caixa de cartão à tanto tempo...

Divagava o seu hálito matinal
E da montra de esmalte
Impendia o cigarro mantido apagado
Subscrevendo replicadamente o manifesto

ADMITO A REALIDADE / admito a realidade

Acendeu o cigarro e mentiu

Debaixo da almofada guardava a pistola
As balas tinha-as o coração
E tudo porque a luz não era um rio de verdade
E o sol inundava tudo
Porque inocular a sombra matava
E mais por ela é que vivia

Havia muitos fogos que não dormia
Era um laivo escarlate aquecido de morte
Dividindo a cama com um glaciar
Ébrio de sol
Tinha um filho anónimo
Que carregava nas costas largas de Sísifo
Porque tinha mais que fazer
Amava por correspondência
A memória que não lhe pertencia
E passava os dias a morrer

Era uma coisa como outra qualquer
O que é?
Perguntava e sabia responder
Em grego e só depois em Alemão
Nem uma coisa nem outra
Mas o sol exangue na escuridão
O futuro gotejado numa lâmina d’inox
A irradiação implodida

Venerava um velho metafísico
Que o esfaqueava pelas costas
Planeava ficar órfão
Mas a luz tinha a forma de berço
Como um tendão enastrando a espada
À noite velejava, um azul de metal
E deitava-se à sombra das rajadas

Armado até aos dentes
Aninhando-se na suspeita
Corre que pedia à sombra para lhe selar as pálpebras

Nº 3 da Rua da Metafísica


Era do género livre para descer avenida e assassinar o primeiro técnico informático, alegando que o nó da gravata não deve ser tão tosco; Subir às arvores de regresso, mirar a vulgaridade dos namorados e seduzir a praça inteira com cigarrilhas Bolivianas. Livre para amar obsessivamente, irromper pelo cinema furtando a inestimável colecção de filmes mudos; Abusar da confiança duns quantos cinéfilos altruístas e escrever muita prosa sobre a razão de ser; Estiolar Agosto após o almoço em solestícios importados.

Havia dois meses que estava emboscado no quarto, disfarçado de criminoso, sabia-o pela televisão:
«Por volta das duas desta tarde pós moderna, uma mulher, empreendedora, arrastou-se do numero três da Rua da metafísica em Lisboa, à beira da antiga praia fluvial, onde ao que tudo indica, terá falecido por afogamento. O suspeito, um homem de meia idade, desempregado por vocação, conhecido por se disfarçar de criminoso e manchar as instituições públicas com fragmentos de Heraclito, continua desaparecido. Segundo nos informaram, uma relação com a Ala Extremista do Tédio, a famosa A.E.T. estará na origem da sua fuga, a qual, até ver, foi bem sucedida. O alto comissário dos casos extremos das Mulheres Feridas em Casa Arrastadas Às Antigas Praias Fluviais (M.C.A.A.P.F.), alertou todos os cidadãos para a necessidade de se concentrarem junto à paragem de táxis mais próxima, para novas indicações. Lembramos que, o suspeito é perigoso e está a monte, vivendo de subvenções vitalícias, e que foi visto pela última vez com um livro de cautelas premiado. Os investigadores admitem a possibilidade do suspeito manter a insanidade auxiliado pelo jogo da lerpa, pois foi visto não raras vezes a jogar com os reformados. Segundo consta do relatório da porteira do 2º Direito: “quando o jogo corria bem não havia problema, mas quando desconfiava, ficava maluco”».

Congregação rara


Em agenda a questão da transcendentalidade da natureza.
Kant e alguns monges budistas representados na figura pop do Dalai lama prometiam animar as sessões.
A organização tudo fez para ressuscitar Kant, mostrando-se agradada com os resultados da iniciativa. Kant, no entanto, mostrava-se algo desapontado pela interrupção do seu descanso: «Sempre duvidei dessa coisa de descanso eterno», afirmou em declarações à radio.
Platão também viria em representação de Sócrates, o qual procuraram contactar sem sucesso – a presença de Platão foi aliás uma exigência de Kant.
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O povo acotovela-se no exterior do centro de congressos. A cobertura mediática fazia-se entender:
(«Até ao momento não há qualquer registo de conclusões.»)
No interior, extasiava-se a plateia na interpretação platónica da Metafísica de Kant e nos improvisos de Sócrates, que ao abrigo do código deontológico dos curandeiros, era tido como presença que só os mais possessos notavam; tocava com a alma, segundo os monges, havia sido no passado um instrumento de cordas divinais
A tempo de assistir por dentro a parte do espectáculo, coagiram-me a sair do recinto depois que todos os congressistas aprenderam inglês, facto que facilitou em muito a discussão com o Dalai lama.
Enfrentei os jornalistas numa entrevista esporádica.
Relatei parte do que vi à editora e pensei em suicidar-me.

Heterobiografia



Curso de habilitação profissional para o cargo de Porteira Cósmica
Disciplina – Alterurgência avançada
Exame Escrito de Admissão
Nome do(a) proponente: Zulmira
Descrição: Elemento activo nº [E] 523874786 [4]
Área – subúrbio L 1– categoria -
Ocupação mundana - Fumigadora de privacidades

I.H.P.P.C



1. Considere heterobiograficamente o sensor humano nº10990842(2) identificado entre os seus como José Carlos Freixo, exemplar da espécie humana, pertencente ao género masculino das coisas avariadas

A gente sabe o que ouve dizer –. Mas, eu estava lá onde e quando tudo começou. Foi em Lisboa no final Verão. Recordo-me como se fosse hoje; fazia um calor insuportável e, nesse ano de 77, o dia 17 de Setembro tinha muito para ser perfeito; a roupa passada e dobrada, as camas mudadas, os miúdos na colónia, o meu marido lá em baixo a polir o carro e a carne quase descongelada para o almoço do dia seguinte – inesquecível – os cães não procuravam posições inestéticas, consegui mesmo ir ao talho, que ainda fica longe do prédio, sem cagar – com licença da mesa – os pés. E, costuma-se dizer que o que não se sabe inventa-se –. Até pode parecer mentira, mas assim que o pequeno nasceu cheirou-me a algo aquilo que fica entre o esturro e a melancolia… Zás disse eu, outra vez aquele odor – o meu faro era então muito certeiro. Pois…, mas o pequeno tinha problemas. Era demasiado calado, muito pouco dado. Um dia até o levaram ao doutor das doenças da alma para ver o que se passava – se estaria doente da cabeça ou coisa parecida –; é que aquilo chamava mesmo a atenção das pessoas. Para mim, o que o miúdo queria era ar puro, o que quer que isso seja, ou então que o ensinassem a estar sozinho – agora psicólogos... Talvez por isso fosse um “estudante” medíocre, sabe-se lá. A minha teoria é a de que a escola serve para muita coisa mas pouco para estudar. Sim, eu sei que estudar é uma coisa séria, e que é isso que torna o estudo impopular entre os “estudantes”, mas qual não foi a minha surpresa quando o rapaz entrou para a Universidade e começou a estudar após anos de conflito com a matemática. Matemática…Como é que alguém pode não gostar de números… estranho, talvez…, para vocês…, mas a matemática foi das poucas incertezas que ele nunca teve. Foi quando se afastou mais de nós. Só mais tarde vim a descobrir porquê. Meteu-se – já se sabe como é a rapaziada nova – na filosofia, vejam lá. Com aqueles sofistas da Universidade Nova de Lisboa. Andavam assim todos preocupados, a comprar livros complicados, a falar de suspeitas... mas agente sabe lá... Quem nos garante que era só na filosofia que ele andava metido, ou se em mais alguma coisa… O certo é que desde então mudou muito mesmo no lidar com os vizinhos. Ser para cá, Nietzsche contra Sócrates, por outro lado, a estranha dupla St. Agostinho–Heidegger e o engagement da angústia; a doce composição solitária com o seu irmão – Flávio –; as viagens espantocêntricas – e, aquele trambolhão na paixão – essa Helena duma caixa de música… Iniciou-se por volta dos 24 anos na arte da metafísica, naquela oficina de poesia que, não sei sabem, inaugurou no quarto. O quê? Parece-vos estranho uma oficina no quarto? Mas é aí que as há!?, ou não é? Eu só que queria que vissem aquele corrupio de ausências, a azáfama de vácuo, aquela fumarada de por a cabeça à voltas; só para terem uma ideia, nesses dias, ninguém podia ter roupa estendida no prédio. O quê, quando a oficina estava a funcionar…? Sabem lá… o lixo que a criação faz, a gosma das pequenas ideias. Seja como for o homem tem licença para Ser, embora apenas recentemente tenha adquirido a licença para aborrecer publicamente. É, ao que parece, professor de Filosofia. Dedica-se, portanto, ao tédio juvenil, pelo menos acredita nisso. Mas eu sei que não passa de um sensor avariado da realidade.