sábado, 21 de julho de 2007

Delirius tremens a quatro mãos (excertos-1ªparte/ a ser escrito actualmente...)

Estrugido de sempre

1

Não é de hoje que as pálpebras seladas soam a mundo,
nem de hoje que vos procuro
De sempre vos amo e escuto
E é de sempre que nos sou

Escuto por que onde acorrem esses membros,
que te abraçam como ao último
Por que “quê” desejaste vê-lo morto?
Confesso qual das armas a mais letal;
amor ou fome?
Escuto o que carrega o lirismo aos ombros, a vítima degolada,
um punhal quente e prazenteiro à ilharga
Ao longe, escuto gemidos que se detêm no prazer, e o crepitar dos
dentes...reconheço ambos
De há muito que o comedor de areia retine um jardim de bronze com raízes
vitéreas,
Escuto-lhe um último suspiro que me soa a redenção
Faço tão só por escutar o vento, coleccionando as folhas que traz
Por completar, um puzzle entregue ao nascer
O range range da claridade na sua eterna emissão, os cabos de alta
tensão,
Esta fatia de realidade, a paisagem,
a minha triste e sentida passagem,
O acotovelamento para passar, as portas automáticas, as buzinas
poliofónicas e os centros fabris, as formas de ver a terra da lua
A teoria do principio, o espaço e a expansão infinita,
Os debates e as terraplanagens, o estilete do futuro, o delírio de uma cura
A tempo
Escuto tudo numa confissão – alguém nasceu cedo de mais.

2

Acordei sem sobressalto num acorde amarelo de amola tesouras
Com fome de aurora,
Beijo agora as flores, disseminando discórdia pelas margens de um poema em
branco
Com os meus próprios gestos faço como me ensinaste, naquele tempo
Da infância
Olho para cada um dos lados e só então atravesso, de olhos fechados,
chapinho nas figuras, pelos campos
Confio nas amoras
Como quem conta uma história,
Sou o apóstolo de mim e demando a mestria de me bastar
Acto duma voz de sempre inventora, o final feliz
Limio a escuta na margem escusa do rio, num triângulo rectângulo e oblongo
Firmado sobre a corrente,
Sou a ponte-sílaba de nós,
A censura das palavras em borbotões de silêncio.

Do meu derrame conta-se uma fábula arenosa, um desabrochar doloroso e,
mais tripas de fora.
Serei um dia como tu, que soas a canto fúnebre arrependido de tudo,
que sabes ensandecer devagar
Serei a nossa janela e única saída deste paraíso em chamas, tão aqui
É-me dado escutar o crepitar neónico desse reclamo moderno:
Eis o primeiro moderno, o sol pálido, a pele branca e uma água tónica;
Aqui o que não se escreve, o que se deve sufocar, as últimas palavras,
A voltagem máxima que move a engrenagem, a dinâmica total tendida para zero,
Ah, se isto tudo funcionasse bem, como nos livros...

3

Lê o amor, a página branca que mancho
Escuta a água sobre a cabeça, bebe mais uma trago do rio Jordão,
Lembra-te de mim,
Com sede,com muita sede
Escuta os que morreram sedentos nos jardins da babilónia, os que mais
próximos estiveram,
O lamento dos que tudo perderam, o júbilo uterino
Escuta o motor pleno de ciência, o conhecimento combustivo,
Encima a torre com os teus pés de barro e cabeça alada, cobre-te com a prata
dos astros
Ouve-me a beber sofregamente, escuta a banda sonora que te pariu,
a dor próxima e o prazer doentio,
o princípio da sofrologia,
Escuta o livro do mundo, quando se fecha, a capa dura que o faz durar
Chega no lombo de um burro, ou de um Titã mal entendido
Escuta os dedos do balconista sobre o tampo, a vaga ansiedade e a beleza do
seu gesto,
Atenta o assobio do marceneiro e a telefonia imunda,
Delega-te a interpretação principal, uma voz de tenor e os sentidos aplausos.

4

De mim não se ouvirá um só aí contra a vida, mesmo que chore, mesmo que o
meu canto soe funesto,
Sou a alegria que nos sepulta, as lágrimas de falsete que a trovejam
o que há-de ser;
O brasido que queima aquém, um coador de palavras soando ilegível,
uma alma entrelinhas

Não há por cá terra livre de armas, nem homens livres sem virtude.
No seu lugar vai-se urdindo uma trama até ao regresso do Senhor
Sobre as águas, escuto, entretanto, a labuta dos pescadores no seu tear tosco,
as mãos sobre as redes,
Eu, o que com pressa as lanço ao mar, a ver o que brinca,
à sombra própria dos ramos altos
O inimigo mortal das musas, cansado polidor de palavras,
Não importa o que sou, mas que apenas consinto cair por mim, por ti e por
todos os que se deitam sobre granadas
Sem ninguém por perto, passeio-me instintivamente ao fim da tarde pela
cidade ou pelos campos distantes
Sou o bouquet que escondes atrás das costas suadas, a circunvolução dos
girassóis,
A melopeia sustenida, o amarelo torrado das beatas, a extrema esbaforida das
tuas asas, no seu toque de Sol
Adestro-me nesta ciência ultra planetária, e a planície roxa diz-me respeito.
Não, não desmaio nos campos,
Sou sobre tudo um labirinto de papoilas,
Às vezes um cedro gaiola duma espécie de ave extinta
Amo o verão das vindimas e trago cestos de vime cheios até cima, com as mãos
pegajosas,
Guardo uma alma setembrina, e um vício oceânico
Vorei os ilhéus por fora e eviscerei o mar,
Constrange-me hoje a nota melancólica que sopras debutante, e invejo como nunca
as artimanhas suicidas de que forras o teu sepulcro, o risco com que mudas de
estação,
Mas o meu egotismo é vaidoso e impede que avance inconspícuo
Nós dois não temos segredos – lembras-te?, oferecemo-los todos sem reservas.
O que quer que me escondas, só guardas de ti próprio. Não me privas de muito se me
tiras o sol,
O meu caminho é nocturno, dormido entre morcegos e penumbra.
Tu nada podes contra a noite, mesmo que a leves,
é minha e, o coração de chumbo é o seu brilho
nesta parcela da terra, a beleza da colheita
Canta, canta o silêncio ébrio, arrasta a madrugada, ergue o triunfo das manhãs em
louvada e nova alvorada
Que eu escuto-te prenhe de queda e só sou livre quando a cantas.


A-caminho

1

Para trás os lençóis de linho, o sonho pervigil, o vociferar exangue da tua voz
Para trás a distância, os passos escutados e os arredores que não percorri
Para trás os que se preparam para partir como tudo o que não regressa,
a ombreira da porta que faz toda a diferença,
Para trás a eternidade dos poetas, o amarelo das azedas, os dentes que as
Rasgam, a mastigação voraz e, eu todo,
Para trás a verdade que quase fui, a derradeira miragem de um deus do
deserto, uma nova forma de te tanger, meu deus,
a única e nenhuma
Para trás o caminho que fui, o decalque árido dos teus passos, a veludo,
Para trás, o que sou, apesar dos frutos roubados, os mandamentos e novos
pecados, o ser vibrante de azul e lamento
Para trás o olhar flácido da rua, uma ideia de tempo, o espaço que pariu a
verdade e a possibilidade do ser
Para trás a matriz ontológica da matéria, e o que vem a ser isto Tudo,
Para trás o futuro, uma cidade submersa, o progresso e a evolução,
Os romances que li, o castelo de metal cegante e uma promessa de regresso;
Para trás a questão, a existência de Deus e a fé dos apóstolos.

É tempo para haver quem olhe por mim, de me confiar
Tempo de encantar refúgio na colina entre as cidades, e crescer o próprio
mundo até lá, içar aí um abrigo e viver do que me dás,
É tempo de decifrar nas fímbrias cinzentas a razão do azul, na extrema alva
da tua clavícula
É tempo de ser a cavalo e aprestar o salto, viajar nas aljavas do vento repleto
de cupidez sedutora,
Tempo de prescrever-me nuvens pelas tardes magoadas, como a ti receitaram
recortar folhas verdes em escrupulosa simetria,
É tempo de olhar o espelho espiral a baixo, reminiscendo o travo do
abatimento
Comer uma maçã vermelha e reassumir a guarda, armar-me até aos dentes
contra uma extremidade qualquer,
Correr sem olhar para as margens, perfurar a montanha e desaguar vazio
Tempo para haver um amigo, observá-lo com redobrado cuidado e despedir as acácias
aspergidas pela hera
É tempo de beijar o chão, agarrar os cabelos junto à nuca, estilar uma cora de
espinhos, sobre tudo
É tempo reler o poema e arar o campo à força das mãos, apurar o raça do
refogado
É tempo de entre nós e a tumba distar um sorriso, de sacudir o tapete e rogar
pragas ao juízo,
De argumentar contra a guerra e de temer a invasão dos astros
Tempo de retroceder duas casas ao lugar cândido da infância,
e de só te obedecer aparentemente
É tempo de me misturar com eles e fingir melhor, de revisitar o quarto
arrombado pelo sol
Passar as mãos pelo rosto e aguardar as palavras
Tempo de tomar de enxurrada a manhã, descomprimindo-a na planura das
tardes
É tempo de cantar o mundo, desassossegar imagens, de arrastar as asas e o
delírio
É tempo de ser outra vez, para trás.

2
Desço a rua num socorro silencioso, espezinho as pedras mais pequenas
Desvio-me dos penedos de betão
Não conheço rumo, jangada ou plano, dou-me pela foz e no cume das serras
Não sou dono do ar, nem das águas, nem do sol, ou do tempo, mas o
coleccionador das tuas palavras, perito em porquês,
possível compulsivo
Sou tudo coisas estranhas e inoxidáveis, de volta ao capricho da Primavera e ao
desperdício das cores
A garganta ciciante do rouxinol barroco, esbaforido de placidez
violeta,
O cunhado dum fim de tarde na melancolia dos que admiram o céu

Ensinas-me, meu amor, a escrever-te sem dor?
A história é simples, e ainda assim guarda todas as histórias do mundo,
contadas e por contar
Vai directamente ao assunto sem esperar, repleta de curvas e
contracurvas, sinápses e viadutos desafiadores
Entre Lisboa e lugar algum, empreende o caminho mais longo entre dois
pontos, desenhando de um jacto o projecto existencial da galáxia.

Tento não pensar nisso, desvio o olhar para o tabuleiro de damas
que adorna o jardim do costume,
Prefiro divagar sobre a vida dos reformados, forçando o paralelismo com a
existência urbana dos pombos
Adestrar-me neste ofício de tédio
Debater a situação num dialecto profeta, usar-me em retórica delirante.
Mas em breve não disporei de damas ou reformados, nem jardins,
os melhores têm hora marcada e um vigilante ansioso
Ele tem casa, família, e um ror de dívidas às costas, ama a vida,
e o trabalho nem sequer é duro
Acima de tudo, é um profissional da vigia, atento aos movimentos da barbárie.
Sempre é melhor que guardar a faixa de gaza, com um colete à prova de balas
e o coração nas mãos
De metralhadora em punho, brindar ao futuro de mãos vazias
E, para que não haja surpresas, começar a ronda pelas sítios mais solicitados
pelos bárbaros coloquiais.
Sei do que falo, estudei autisticamente os seus gestos, e não encontro
problema em dissipar vestígios da minha presença.


3

O gato entremeando as minhas pernas, mostra o caminho
Bem sabes que acorro a todos febrilmente, e que todos as estradas levam à
praça central, onde se bebe o melhor café e a vida desvaria nas silhuetas
taciturnas de néctares profanos
A promessa é de amores levianos
“Ó sulco no meu coração”
Sirvo-nos uma bebida social diuturna, seguindo os
passos incertos numa certeza demente
Semeio os bêbados pelas valetas, e só por acaso desabrocham da minha
solidão, fendidos de prazer bravio
Amanho a terra da loucura e colho os dias estranhos, atrás dos escombros
de um olhar de louça
Sou espião de um amor inexpiável, escadas a baixo
O abismo infundado, onde uma só estrela canta o mistério azul-veludo.

Abocanho tudo com felinia e agito freneticamente os dedos,
retesando as unhas, mato agora de prazer, uma a uma, das coisas de
Deus
E desfaleço a seus pés, expiando o este outro pecado.

Mas és tu, que me vales, mais uma vez no caminho, como pela tarde a sombra,
arduamente
Que apressas o tempo para que torne à nascente, delírio verbal
Que apagas de novo a luz, de regresso às trevas celestes
E provéns o luar em breves termos
Que aguças a vaga furiosa, ornando-me dessa bijuteria dos cumes
por onde te demoras toda a noite a embalar o branco
És o que reflui metamorficamente o caminho e a perdição escarlate
Que nos admiras ao espelho quando o sol encandeia,
e que o fitas de raspão
Que me mostras escasso para tamanha dúvida, por aqui
És a mãe que esbofeteia os filhos, a carpideira que canto
através deles
O olhar baço que os aprisiona, a frustração e a vida...
O meu legado, a tua loucura.

4

Por aqui, canto ainda o caminho e as pedras, as golfadas de verde revessadas
os que a tempo atravessam
O baldio silvestre, o caniçal, todas as caras e passos, atrás de mim e adiante,
as vinhas e os olivais, o traçado geométrico dos campos, as lezírias, os pomares
em flor, e as colheitas
Canto a plantação e a ceifa, o asfalto e a velha ponte romana, o alto dos ais, o
vento irremissível que o habita
Canto os plátanos e os animais vivos, as aldeias, as vilas e as cidades, os jugos
mecânicos e os vagões urbanos, sarapintados
Canto o ruído sobre carris, as remodelações civis, as golfadas de malmequeres,
os morangos, as dunas e o vagido tonto do mar,
Canto a desflorestação e a lua, o beco da infância, a contra mão e a rua,
o sentido único dos corações,
Canto os pinhais, o verão, o ribeiro, as azinheiras, as águias e o seu adejo
espiral
Canto as embarcações e os portos, o areal granate, e as amarras lassas,
as falésias, as gaivotas, o mar, a manhã, e as cinco da tarde,
Canto o fragor demolhado, o orvalho aos ombros, os meus pés em movimento
e as botas puídas, a procissão, as janelas incandescentes, os castelos e
os templos esquecidos
Canto as torres de iluminação eléctrica, as vitrines diáfanas, as promoções
e todo o progresso
Canto o vento nos meus cabelos, uma flor à lapela, a ceifeira, os fardos de
palha e a terra penteada
Canto o acotovelamento público, o ar impoluto e o resto, a chuva
e todos os abrigos peregrinos
Canto as paragens, as fontes, as margens, a beira mar, as nuvens soltas
os pastos e os charcos longínquos
Canto a meia noite, a lua nova, o néctar das manhãs,
o nevoeiro vespertino e as noites indomadas
Canto o grito das fragas à noite, o azul turquesa e as baias,
os que chegam e os que partem, os que fazem pela vida
Canto a estrada esmaecida na praia, a construção e as gruas na encosta, a
alegria dos que trabalham
Canto o roçagar da erva húmida, a alma das esferas e uma epopeia de betão, o
metal erguido ponte sobre a torrente
Canto os corredores verdes, as estações e o gorgolejo dos rios,
os sulcos compridos e as tempestades, o murmúrio promíscuo e as enxurradas
Canto a vilania e o perdão, o espaço profícuo e as estrelas, o cometa incansável
e o paralelo preto do chão
Canto a alvura e o seu mistério de sempre, os bosques brumosos,
as colinas profanadas, o voo alto e as emboscadas
Canto o coração e as entranhas, as vielas escuras, o corrupio dos fantasmas,
o caos e as cores
Canto-me a ti...

5

O meu ciclo dilui tudo num bocejo, onde a alma descansa em vapores e
morfina
Sou por onde a poesia se entrega em mãos,
os meus dedos equipam diligencias d’um génio prestidigitador
Avancei a fronteira, o último bastião, fui o traidor, de absolutamente ansioso,
por quem nunca chegaste a tempo
O que se arrependeu tarde demais e quase morreu sem nada.

Fui sempre uma questão de terraplanagem
A canção imprecisa e fora de tempo
que a todos chama para esfaquear fatalmente os tempos mortos.

...Preciso de ti para amar, preciso de ti para matar
Tenho-te em todas as ruas, por todos os caminhos de que és porta
Beijo a fenda escura, renasço e ajudo a nascer,
a realidade do prazer, a atracção total e o choque
inrazoável
A minha vida é o ponto exacto onde te dás poema
A expansão e a redução cósmica a um só tempo
Fui seduzido, ou deixei-me levar pelo fogo, assim que toquei a lua
Nesses lábios que queimam
Aprendi a admirar os que na espera pelo último império,
içam uma ponte móvel sobre o tédio.
Observo hoje a tua escrita em tempo circular,
Estudadas as novas cidades que sobre outras ergueste,
Sei as histórias de algumas nações que anexadas.
Disseste-me que entre nascer e morrer havia um único momento
Em que nascendo se morre, amando alguma coisa
E eu acreditei
Ser mais um a-caminho.

Nota: a presente aparição não cumpre em absoluto a formatação original dos textos.

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